Histórias da cidade: Seu Antônio, o empalhador de cadeiras da Atalaia. ARACAJU

3 abr

Sem querer, acostumamos a andar com pressa, correndo aqui e ali, com pouco tempo para olhar em volta. A gente acostuma a passar sem olhar, a olhar sem perceber, a perceber sem se interessar.

Mas um dia, no stress do trânsito engarrafado, olhei para o lado e vi aquela pessoa sentada na calçada sob o sol do meio-dia, disputando com uma cadeira a pouca sombra de uma palmeira. Cuidadosamente, rendava com palha o assento de uma cadeira antiga, daquelas que via na casa dos meus avós e que as senhorinhas do interior colocavam na porta de casa para travar com os vizinhos alguns dedos de prosa.

O trânsito retomou, alguém buzinou e eu segui no meu roteiro do dia. Mas em um sábado qualquer, voltei. Parei e observei de perto o trabalho minucioso daquelas mãos,  recuperando fio a fio a beleza de móveis cheios de lembranças.

Nesse dia, fui recebida com um sorriso largo e um convite para sentar. Acomodada em uma cadeira de balanço, comecei a ouvir sua história enquanto ele concluía mais uma peça. Cada mão com seu ofício!

Antônio Reis de Araújo nasceu em Recife, em 10/05/1952. De família pobre, deixou as brincadeiras da infância na periferia da cidade para, aos 14 anos, começar a trabalhar em uma fábrica de móveis no Bairro da Torre (freguesia que abrigou a primeira manufatura de algodão do Pernambuco). Ali aprendeu o ofício de empalhar cadeiras.

Bairro Torre - Recife 1910

Região do Bairro da Torre – Recife, em postal de 1910. Imagem disponível em http://www.direitosurbanos.wordpress.com.br

Da fábrica, passou a trabalhar em tradicionais lojas de móveis no centro de Recife, tirando seu sustento do seu rendado de palha.

Aos 26 anos, contudo, entre uma cadeira e outra, descobriu o vício. Por algum tempo viveu refém do alcoolismo. Perdeu dinheiro, perambulou pelas ruas, até um dia decidir que não perderia para a ‘bebida’. Em 1978, procurou ajuda no Alcoólicos Anônimos onde, além de superar a dependência,  passou a ajudar outras pessoas com seu exemplo. Tornou-se colaborador da associação, levando sua experiência para muitos.

Em 1983, em busca de uma nova vida, decidiu vir para Aracaju. De pronto, arrumou emprego na loja de móveis A Soberana, na Rua Itabaianinha, próximo ao Calçadão das Laranjeiras. Passou apenas três meses na loja e decidiu montar sua própria oficina. Alugou um pequeno ponto na Rua Santa Catarina. Trabalhava no imóvel da frente e morava em um quarto de vila, atrás do ponto comercial. Com o tempo foi se aproximando do centro da cidade. Saiu do Bairro Siqueira Campos e montou sua segunda oficina na esquina da Rua Arauá com a Rua Senador Rollemberg.

Segundo ele, trabalho não faltava, mas passou a enfrentar a concorrência de  empalhadores que trabalhavam nas ruas de Aracaju. Um outro  Antônio começou a empalhar cadeiras na pracinha do Iate Clube, na Av. Ivo do Prado (esse já falecido),  e outro empalhador estabeleceu seu ponto na calçada da  Igreja do São José. Seu Antônio diz que tinha uma boa clientela, mas precisava pagar aluguel e as despesas do imóvel. Em 1996, decidiu deixar oficina e trabalhar na rua.

Seu primeiro ponto foi na Rua Lagarto, em frente a floricultura do Seu Fenelon. Permaneceu ali por alguns anos. Nesse meio tempo, recebeu sua casa no Conjunto Orlando Dantas e, por algum tempo, manteve a oficina em casa mesmo. Mas há dez anos voltou a trabalhar na rua. “Aqui sou mais visto”, conta confiante. Conversou com o padre da Igreja Católica da Atalaia e, desde então, empalha suas cadeiras no estacionamento da paróquia, na sombra daquela palmeira, onde o encontrei, lá no início da matéria.

Nesse cantinho fez clientes e amigos. A todo instante alguém para pra puxar assunto. Um cliente passa na avenida e buzina, lembrando  que semana que vem tem serviço. Não poderia ser diferente. Além de um artista da palha, Seu Antônio é uma pessoa cativante, sempre com um sorriso simpático pronto para atender quem se aproxima.

E por que eu te contei tudo isso? Muito provavelmente porque daqui a alguns anos essa profissão e esse tipo de profissional estarão extintos e eu não gostaria de carregar o peso de saber que  tive a chance de conhecer um deles e não o fiz. Memória é vida!

– Quem quiser conhecer o trabalho do Seu Antonio, ele está todas as tardes, durante a semana, no estacionamento da Paróquia Bom Jesus dos Navegantes, na Av. Antonio Alves (continuação da Av. Beira Mar), no Bairro Atalaia, em Aracaju.

– Nosso personagem continua morando no Conjunto Orlando Dantas. Vive há mais de 30 anos com Dona Célia, com quem tem dois filhos, que não quiseram seguir seu ofício. Nunca mais voltou  a beber, mas vai às reuniões do AA toda semana e viaja para reuniões da Associação pelo Nordeste. Orgulhoso, diz que já conheceu todas as capitais nordestinas com o dinheiro da sua palha 🙂

– Por muitos anos vi o outro Antônio empalhando cadeiras embaixo de uma árvore, na pracinha do Iate Clube, no cruzamento entre as avenidas Ivo do Prado e Augusto Maynard. Desde então, sempre quis conhecer a história de um empalhador. Só agora, em contato com o ‘nosso’Antônio, nessa matéria, soube que o outro Antônio havia falecido. Há alguns dias, passando pelo local  notei as placas em homenagem a ele, fixadas na árvore, seu antigo ponto.

Placa em homenagem ao Antonio empalhador da Av. Ivo do Prado

– Esse post é parte do nosso projeto “POEIRA, PAREDES e HISTÓRIAS“, que tenta resgatar as histórias e memórias de Aracaju – Sergipe. Conheça a Fanpage aqui.

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