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Perdendo as malas em CARACAS – ALERTA AOS TURISTAS.

18 dez

Esse é um post sem fotos, sem nenhuma alegria e isento de qualquer boa lembrança. Que sirva apenas de ALERTA para que outras pessoas não passem pelo o que passamos.

Nunca imaginei que terminaria uma viagem fazendo um post como este e, por algum tempo,  ainda pensei em não tocar no assunto, mas cheguei à conclusão que meu silêncio seria tão conivente e covarde quanto as pessoas e todo esquema armado para lesar turistas do qual, infelizmente, fomos vítimas.

Movida por toda tristeza, decepção e revolta, relato que, após uma semana perfeita em CURAÇAO, com lembranças e alegrias de uma viagem inesquecível, eis que surpreendentemente encerramos nossa viagem jogados na lama, apenas com a roupa do corpo e alguns poucos pertences que conseguimos arrancar do veículo antes de nos arremessarmos do carro já em movimento. ESSA É CARACAS.

Já havia lido sobre a cidade e sua falta de segurança, mas acho que nenhum dos relatos a que tive acesso foram claros o suficiente para que eu redobrasse a cautela ou até mesmo desistisse de pernoitar na corrupta e insegura capital da República Bolivariana de Hugo Chavez.

Nosso voo de Curaçao para Caracas estava marcado para as 11h da quinta-feira, 15/12/2011. Ocorre que, quando chegamos no aeroporto de Curaçao, fomos informados que a empresa aérea (Dae)  simplesmente havia alterado o voo para as 20h. No plano inicial, iríamos chegar em Caracas durante o dia, o que havia me deixado mais segura. Com a mudança, desembarcaríamos à noite, mas, até aí, eu ainda acreditava que a violência de CARACAS seria como em qualquer lugar, onde escolhas cuidadosas poderiam te salvar de situações difíceis.

ERREI FEIO. Quando desembarcamos em MAIQUETÍA, Aeroporto Internacional da Venezuela, às 20:30h, nossa única preocupação era pegar um táxi confiável. Por essa razão, quando fomos recebidos na saída da Alfandega – ÁREA CUJO O ACESSO É RESTRITO A FUNCIONÁRIOS DO AEROPORTO – por um senhor bem educado que nos apresentou uma credencial de taxista, naquele momento estávamos certos de que para ele ter tido acesso ao local onde estava, só poderia ser alguém credenciado pelo próprio aeroporto. Toda abordagem foi assistida por funcionários do aeroporto e pelos funcionários das cooperativas de táxi. Ninguém fez qualquer objeção à presença do taxista ali, tampouco nos fizeram algum alerta. Tudo nos deu a certeza de que estaríamos seguros.

Seguimos com ele até o desembarque e lá um Meriva Azul Marinho já nos aguardava com um motorista a postos. Nós e nossas malas fomos gentilmente acomodados no carro. Quando o táxi já ia saindo, o senhor abruptamente entrou no veículo, dizendo algo, dando a entender que pegaria uma carona. Aí já percebemos que algo estava errado. Ainda tentei destravar as portas, mas já não consegui. O carro saiu rapidamente da área do embarque e, em segundos, já havíamos nos afastado do aeroporto, onde tudo a nossa volta era escuro e totalmente deserto. O jeito foi rezar e ver no que ia dar. De uma coisa eles tinham certeza, que não tínhamos nenhum tipo de arma ou objetos cortantes, pois fomos abordados logo após passar no Raio-X. Estávamos nas mãos deles, em uma cidade totalmente desconhecida e dentro de um país de procedimentos, no mínimo, duvidosos.

Após uma hora rodando, já dentro de Caracas, eles entraram em uma rua escura e anunciaram o assalto. Queriam todo nosso dinheiro e nossas malas. O senhor (que estava no carona) apontava uma arma para nós, mas no primeiro descuido percebemos que a arma era falsa. Aí… Pense na confusão. Reagimos (o que é apenas e um relato, nunca um conselho). Começamos a chutar os vidros e pedir ajuda. Várias pessoas e carros passaram, mas ninguém ajudou. Sequer tiveram a hombridade de chamar a polícia. O carro andou mais um pouco e o Hélio conseguiu puxar o freio de mão. Paramos em um ponto cercado por prédios. Em luta com o motorista, o Hélio conseguiu desligar o carro. Os vidros abriram. Eu saí pela janela e comecei pedir ajuda. Quando consegui abrir a porta, arranquei as duas bolsas que eu estava trazendo como bagagem de mão de dentro do carro e me joguei na rua. Ao mesmo tempo, o Hélio tentava arrancar a chave da ignição, mas logo foi arremessado do carro que saiu em disparada. Caiu na lama, bem ao lado do carro e quase foi atropelado na fuga dos bandidos.

Ficamos jogados no chão, e vimos nossas malas, com todas nossas lembranças e fotos de Curaçao irem embora. A sensação é desoladora. Passaríamos 24 horas em Caracas sem nada. Por sorte, eu consegui salvar minha bolsa, com dinheiro e documentos, inclusive o Passaporte e a reserva do Hotel. Mas os absurdos venezuelanos não param por aí. Pessoas do condomínio desceram para nos ajudar. Pedimos que chamassem a polícia e eles, com certa cautela, diziam: “Não! Polícia não”. Bom, nada mais em Caracas nos surpreendia. Mas ainda assim vem mais surpresa. Um morador do condomínio ia saindo de carro e o rapaz que nos ajudava pediu para ele nos dar uma carona até nosso hotel, pois havíamos acabado de ser assaltados. Certo. Ele nos levou até um hotel, que não vimos o nome e, antes de descermos do carro, o cidadão, bastante grosseiro, nos exigiu 50 bolívares pela “corrida”. Entreguei a ele os únicos bolívares que eu tinha, exatamente os 50. Não bastasse isso, o hotel não era aquele e tivemos que pegar um táxi para o hotel certo. Como não tínhamos mais bolívares, tivemos que pagar em dólar, o que saiu absurdamente caro. Veja que, se além das malas também tivéssemos ficado sem dinheiro, estaríamos arruinados.

Chegando no hotel, chamamos a polícia. Os policiais que foram até lá nos atender foram extremamente solícitos, mas a descrença deles já nos deixava ciente de que nada poderia ser feito. Uma hóspede venezuelana do hotel, a Carmen, viu nossa situação e se ofereceu para nos acompanhar até a delegacia, pois falava português. A Carmem foi um anjo que caiu do céu. Nos confortou e se desdobrou para nos ajudar. Seguimos na viatura até a delegacia e lá os policiais de plantão sequer queriam permitir nossa entrada, alegando, em outras palavras, que “não tinham nada a ver com isso”. Nós  insistimos e só então eles aceitaram fazer um Boletim de Ocorrência ridículo, que sequer descrevia o veículo usado no assalto, tampouco descrevia nossas malas ou os objetos roubados. Nós insistimos em dizer que fomos abordados pelo bandido dentro de uma área restrita e a cara irônica dos policiais clareou nossas idéias. Simplesmente não tinha a menor importância, pois o “esquema” no aeroporto parecia já ser conhecido e ignorado pelas autoridades que deveriam combatê-lo.

A Carmem nos emprestou roupas para dormir e deu um tênis para o Hélio, que na luta dentro do carro teve os sapatos arrancados.  No dia seguinte, fomos para a Embaixada Brasileira, onde um segurança venezuelano não queria permitir nossa entrada, dizendo que tínhamos que procurar o Consulado. Aí foi demais. O Hélio perdeu a cabeça e começou a gritar: “você está me dizendo que eu não vou entrar na Embaixada do meu país?”. O segurança, já em tom ameno, decidiu chamar um funcionário da própria Embaixada, outro venezuelano, que já em tom apaziguador pediu, em fluente espanhol, que seguíssemos ao consulado, nos dando o endereço de lá. Mais uma vez tivemos que seguir de táxi, pois na Embaixada não houve nenhuma preocupação em saber se tínhamos como chegar ou se tínhamos qualquer dinheiro para locomoção.

No Consulado, até que enfim, apesar da frieza inicial, após relatar toda nossa situação, fomos finalmente recebidos e amparados. Lá, conversando informalmente, soubemos que brasileiros são assaltados toda semana em táxis no Aeroporto, inclusive nos táxis credenciados. Histórias de taxistas credenciados que pegam turistas no desembarque e levam para bandidos em algum ponto fazem parte da rotina do aeroporto da Venezuela. Turistas assaltados e seqüestrados (o maldito seqüestro relâmpago para saques em caixas eletrônicos), bandidos que têm acesso a áreas restritas do desembarque para abordar turistas como taxistas credenciados, tudo com a conivência das autoridades do próprio Aeroporto. Não bastasse isso, a polícia, inoperante  e apática, também tem sua parcela em todo esquema. Ou seja, EM CARACAS  OS TURISTAS ESTÃO ENTREGUES AO BANDIDISMO. Não ser assaltado é a exceção que foge à regra. Ouvimos isso textualmente no Consulado.

Até a equipe de jornalismo de uma renomada revista brasileira, semanas antes, foi sequestrada no esquema de táxis do aeroporto e levada para uma favela, onde foram assaltados e, por sorte, não foram mortos. Mas isso, por alguma razão, não aparece na Imprensa Brasileira. Por alguma outra razão, o Governo Brasileiro também parece fazer vista grossa para o que está acontecendo com os turistas brasileiros na Venezuela.

O Cônsul disponibilizou seu carro para nos levar ao aeroporto, para, finalmente, pegarmos nosso voo de volta para casa. Também nos entregou bolívares para pagar as malditas taxas aeroportuárias (190 bolívares por pessoa – que NÃO estão incluídos nas passagens da GOL) e ainda finalizou dizendo que não poderia nos ajudar com uma quantia maior, pois certamente em poucos dias apareceriam outros brasileiros na mesma situação: assaltados, precisando de ajuda. Ou seja, ajudar brasileiros assaltados em Caracas faz parte da rotina deles. E as AUTORIDADES BRASILEIRAS VÃO SE FAZER DE TRÊS MACAQUINHOS ATÉ QUANDO? O Consulado, apesar de fazer o possível, parece estar de mãos atadas diante da corrupção das autoridades venezuelanas e da inércia do governo brasileiro.

Voltamos para casa arrasados. Perdemos câmeras fotográficas, dinheiro, relógios e, o pior de tudo, meu laptop com todas as fotos de CURAÇAO. Retornamos psicologicamente devastados.

Ninguém merece que uma viagem termine dessa forma. POR ISSO A DICA: EM CARACAS, TODA CAUTELA É POUCA. O ideal mesmo é, em caso de pernoite, ficar no hotel do próprio aeroporto, que oferece translado. O box dos táxis credenciados fica estrategicamente escondido, atrás da escada rolante no desembarque que dá acesso à praça de alimentação. Os funcionários desses táxis, estranhamente, ficam do lado de fora do aeroporto. Ou seja, os bandidos te abordam lá dentro, dentro de áreas de acesso restrito, e os credenciados ficam do lado de fora. O turista é intencionalmente induzido a erro. Os caras de farda azul, das cooperativas, são os donos da área do desembarque e te engolem como leões assim que você desembarca, meio zonzo, sem entender bem o que se passa naquele aeroporto. Não se engane, vá direto aos credenciados, lá fora, que usam Fords Explore pretos. Não há total segurança com eles, mas ainda assim são a opção menos insegura. Eu tinha fotos de tudo (tiradas no início da viagem, enquanto aguardávamos nosso voo de ida para Curaçao), mas… Foi tudo perdido no assalto.

Terminamos uma viagem perfeita com escoriações no corpo e péssimas lembranças na cabeça, mas ainda assim muito agradecidos a Deus por termos apenas perdas materiais. Diante dos números de seqüestros, estupros e latrocínios que assolam a Venezuela, o que nos aconteceu foi o mínimo. Espero que esse alerta ajude a evitar a repetição de histórias como essa. CURAÇAO vai ficar na nossa lembrança e nos nossos corações, certos de que um dia voltaremos para retomar toda felicidade que a ilha nos deu e Caracas nos tirou.

Lembrança de Caracas – joelhos machucados no assalto.

ÚTIL:

– Site do Consulado-Geral do Brasil em Caracas http://cgcaracas.itamaraty.gov.br/pt-br/

– Site do Eurobuilding Express Maiquetía, Hotel do Aeroporto na Venezuela, aqui.

– Dicas seguras para o caso de uma inevitável passagem pela Venezuela  aqui.

– Outros relatos de coisas absurdas que acontecem com turistas no Aeroporto da Venezuela aqui